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Samba/MPB

Clara Nunes: A Voz que Levou o Samba de Raiz ao Grande Público

Nascida em Paraopeba, Minas Gerais, em 1942, Clara Nunes não veio de dentro da tradição carioca do samba — e, ainda assim, se tornaria uma das vozes mais associadas a esse gênero na história da música brasileira. Sua trajetória combina duas contribuições que raramente andam juntas: o sucesso comercial de massa e o compromisso de levar ao grande público um samba de raiz enraizado na cultura afro-brasileira, incluindo elementos do Candomblé, numa época em que essas tradições ainda enfrentavam estigma social.

De Minas Gerais ao centro do samba carioca

Clara Nunes começou a carreira musical ainda nos anos 1960, transitando por diferentes estilos antes de encontrar, ao longo da década seguinte, o caminho que a consagraria: o samba ligado às escolas e à tradição das rodas cariocas, em particular sua proximidade com a escola de samba Portela, celebrada em mais de uma canção de seu repertório. Ao longo dos anos 1970, tornou-se uma das artistas brasileiras mais ouvidas e mais vendidas de sua geração, um sucesso comercial que se tornaria a plataforma para uma missão artística mais ambiciosa: apresentar a um público nacional de massa um samba mais próximo de suas raízes populares e afro-brasileiras do que boa parte do que dominava as rádios da época.

Samba de raiz para o grande público

Num momento em que a indústria fonográfica brasileira favorecia sonoridades mais polidas e uma MPB de produção sofisticada, Clara Nunes apostou em um repertório enraizado na tradição do samba de terreiro e de escola — próximo do batuque, da percussão e da entonação que caracterizavam o samba mais popular, não o samba-canção romantizado para o rádio. Essa escolha, sustentada por vendas expressivas de disco, ajudou a manter viva e visível uma vertente do samba mais próxima de suas origens comunitárias num momento em que ela corria o risco de ficar restrita a círculos mais fechados.

Candomblé, Umbanda e a visibilidade da cultura afro-brasileira em plena ditadura

A contribuição mais significativa de Clara Nunes para a história cultural brasileira talvez esteja na forma aberta como incorporou elementos das religiões de matriz africana — sobretudo o Candomblé — à sua música e à sua imagem pública. Ela própria era praticante dessas tradições religiosas, e não apenas uma intérprete de canções que as mencionavam de fora: subia ao palco vestida de branco, com guias (colares sagrados associados ao Candomblé e à Umbanda) à mostra, numa afirmação pública de fé numa época em que as religiões afro-brasileiras ainda carregavam décadas de estigma e perseguição herdadas de boa parte do século 20 brasileiro.

Essa afirmação acontecia, além disso, durante a ditadura militar (1964–1985), período de forte controle cultural e político no país. Levar ao público de massa — via rádio, televisão e vendas de disco recorde — uma celebração explícita de tradições religiosas afro-brasileiras teve um peso simbólico real: ajudou a dar visibilidade e um grau de legitimidade cultural a práticas que, até então, muitas vezes eram tratadas com desconfiança pela sociedade brasileira mais ampla.

“Canto das Três Raças”: um hino sobre identidade e resistência

Lançada em 1976, “Canto das Três Raças” — composta por Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro — tornou-se uma das canções mais marcantes de sua carreira e uma das mais importantes já gravadas sobre a formação racial e histórica do Brasil. A letra evoca a experiência da escravidão e a resistência das populações negras e indígenas na formação da identidade nacional, cantada por Clara Nunes com uma intensidade que transformou a faixa em um hino sobre memória e resistência — um tema de peso político real num contexto de censura e controle cultural do regime militar. É, até hoje, uma das canções mais lembradas quando se discute música popular brasileira e identidade racial.

Outra canção emblemática de seu repertório, “O Mar Serenou”, tornou-se associada a Iemanjá, orixá do mar no Candomblé e na Umbanda, e segue sendo tocada até hoje em celebrações de Réveillon nas praias brasileiras dedicadas à divindade — um exemplo de como o repertório de Clara Nunes ultrapassou o sucesso comercial imediato e se incorporou a práticas culturais e religiosas que persistem décadas depois.

Um legado interrompido, uma voz que permanece

Clara Nunes morreu em 1983, aos 40 anos, após complicações de uma cirurgia, no auge de sua carreira — uma perda prematura que a história da música brasileira ainda trata como uma interrupção precoce de uma trajetória em plena ascensão. Mesmo assim, seu impacto permanece: ela segue sendo lembrada como uma das maiores vozes do samba brasileiro e como uma figura central na história de como a cultura afro-brasileira, incluindo suas tradições religiosas, alcançou visibilidade e reconhecimento num palco nacional de massa — um legado que conecta diretamente à tradição do samba que discutimos em as origens do samba e da MPB.

Se você está pensando em explorar a percussão que sustenta essa tradição na prática, vale a leitura do nosso guia de pandeiro profissional para samba.