EDIÇÃO DIGITAL  ·  HISTÓRIA, GÊNEROS E EQUIPAMENTOS
Samba/MPB

Samba/MPB: Guia de Referência do Gênero

Samba e MPB formam, na prática, um contínuo histórico: a MPB nasce de compositores formados dentro da tradição do samba e do samba-canção, que expandiram esse vocabulário absorvendo influências da Bossa Nova e do jazz. Esta página reúne o que caracteriza o som dessa tradição, os instrumentos que a definem e os artistas que, em cada década, ampliaram seu repertório. Para a história completa de como o gênero nasceu, veja nosso artigo sobre as origens do samba e da MPB.

Contexto e som característico

O samba se distingue por um balanço rítmico sincopado, construído sobre a interação entre um instrumento de acompanhamento harmônico percussivo (tipicamente o cavaquinho) e uma bateria de percussão que sustenta o andamento — mesmo em formações pequenas, sem escola de samba ou bloco por trás. Essa síncopa, herdada de tradições afro-brasileiras como o batuque, é o que separa o samba, no ouvido, de outros gêneros de raiz igualmente sincopados, como o próprio jazz.

A MPB, por sua vez, não tem uma assinatura rítmica única — é definida menos pelo som e mais pela sofisticação harmônica e pela centralidade da letra como elemento poético, geralmente construída sobre a base instrumental de violão e voz, com arranjos que podem incorporar desde a percussão do samba até cordas orquestrais e influências de jazz e rock, a depender do compositor e da década. Essa amplitude estilística é, em si, uma marca do gênero: MPB descreve menos um som fixo do que uma tradição de canção brasileira autoral e letristicamente ambiciosa.

Instrumentos típicos

Cavaquinho. O instrumento mais central do samba de raiz. Pequeno, com quatro cordas, preenche o espaço harmônico com acordes curtos e percussivos que funcionam quase como parte da seção rítmica, não apenas como acompanhamento melódico. Veja nosso guia de como escolher um cavaquinho para quem quer começar a tocar na prática.

Violão de aço (violão de sete cordas). Enquanto a Bossa Nova adotou o violão de náilon como assinatura, o samba e a MPB historicamente se apoiaram no violão de aço — e, em particular, no violão de sete cordas, que adiciona uma corda grave extra usada para criar contrapontos melódicos por baixo da harmonia principal, técnica associada a violonistas como Dino 7 Cordas.

Pandeiro. Talvez o instrumento de percussão mais versátil do samba: uma única peça capaz de produzir grave, agudo e timbre metálico (das platinelas) simultaneamente, o que permite que um único percussionista sustente boa parte do andamento rítmico em uma roda pequena.

Surdo, tamborim e cuíca. Peças centrais da bateria de escola de samba: o surdo marca a pulsação grave que guia o desfile, o tamborim pontua com variações rítmicas rápidas e a cuíca produz o som gemido característico do samba de enredo, por fricção de uma vareta presa à pele do instrumento.

Voz e violão (formação MPB). Na MPB, a formação mínima costuma ser voz e violão, com o instrumento funcionando tanto como base harmônica quanto como parceiro melódico da voz — um modelo de canção de compositor que se consolidou nos festivais de TV dos anos 1960 e segue como referência até hoje.

Artistas fundamentais

Cartola, fundador da Estação Primeira de Mangueira, é hoje reconhecido como um dos maiores compositores populares brasileiros de qualquer gênero, com uma obra que só alcançou reconhecimento nacional amplo décadas depois de composta. Noel Rosa, nos anos 1930, definiu o samba-canção com letras que misturavam lirismo e humor coloquial carioca. Já Ismael Silva, no Estácio de Sá, é apontado por muitos historiadores como responsável por acelerar o andamento do samba e reorganizar sua percussão, dando origem ao samba de enredo tal como se conhece hoje.

Nos anos 1960, os festivais de TV revelaram ou consagraram Chico Buarque, Elis Regina, Edu Lobo e Gilberto Gil como os principais nomes da MPB — com Chico Buarque se tornando, na década seguinte, um dos compositores mais visados pela censura da ditadura militar, driblando censores com letras metafóricas. Milton Nascimento, a partir de Minas Gerais, ampliou o vocabulário harmônico e temático da MPB com influências de jazz e música instrumental. Mais recentemente, o pagode dos anos 1990 e 2000 — com nomes como Zeca Pagodinho — manteve o samba relevante como música popular de grande escala, num registro mais despojado do que o samba de escola tradicional.

Subgêneros e vertentes

O samba se ramificou em vertentes distintas ao longo do século: samba de enredo (mais acelerado, criado para o desfile em movimento das escolas), samba-canção (lento e melódico, voltado ao rádio), samba de raiz (mais próximo das rodas informais e de suas origens) e pagode (vertente intimista surgida nos anos 1970, depois transformada em fenômeno comercial). A MPB, por sua vez, não tem subgêneros tão formalizados, mas costuma ser dividida por geração ou movimento — dos festivais dos anos 1960 ao Tropicalismo, que emergiu em diálogo tenso com a MPB mais tradicional da mesma década.

Para quem está começando

Se você está pensando em aprender a tocar samba, o cavaquinho costuma ser o ponto de partida mais natural: tem uma curva de aprendizado inicial mais rápida para acompanhamento rítmico do que o violão, embora exija, com o tempo, uma técnica de mão direita bastante específica para soar autêntico. Nosso guia de compra de cavaquinho cobre afinação, tamanho de braço, madeira do tampo e a diferença entre modelos acústicos e com captação — o que realmente importa para escolher o primeiro instrumento.