As Origens do Samba e da MPB
Toda tradição musical brasileira que hoje chamamos de “MPB” — da sofisticação harmônica de Chico Buarque às letras poéticas de Milton Nascimento — tem uma raiz comum: o samba, gênero nascido no início do século 20 no Rio de Janeiro, fruto de uma diáspora cultural que atravessou o Atlântico e depois atravessou o próprio Brasil.
De Salvador ao Rio: a formação do samba
As raízes do samba remontam a tradições musicais afro-brasileiras da Bahia, como o batuque e o samba de roda, com suas origens ligadas a práticas culturais trazidas por povos africanos escravizados e recriadas em solo brasileiro. Com o fim da escravidão em 1888 e as transformações econômicas e sociais que se seguiram, um fluxo migratório levou muitas dessas tradições culturais baianas para o Rio de Janeiro, então capital do país.
No Rio, essas tradições encontraram terreno fértil na região central conhecida informalmente como “Pequena África”, ao redor da atual Praça Onze. Um dos pontos de encontro mais citados pela historiografia musical é a casa de Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata, baiana que promovia rodas e festas onde música, dança e práticas religiosas afro-brasileiras se misturavam. Foi nesse ambiente de trocas informais entre músicos que o samba carioca começou a tomar forma como gênero distinto.
“Pelo Telefone” e a polêmica da primeira gravação
O samba “Pelo Telefone”, registrado formalmente em 1916 e lançado em disco em 1917, costuma ser apontado como a primeira gravação de samba da história — um marco simbólico, ainda que a datação e a própria definição do que conta como “samba” nessa gravação sejam discutidas por pesquisadores até hoje. A autoria oficial foi registrada em nome do compositor Donga, mas há um consenso historiográfico de que a canção nasceu de forma coletiva, nas rodas de música promovidas por Tia Ciata, com contribuições de vários frequentadores daquelas rodas que não foram creditados no registro oficial — um retrato da forma como boa parte da música popular se compunha coletivamente naquele momento, antes de os direitos autorais formais se tornarem norma na indústria musical brasileira.
Dos morros às escolas de samba
Na década de 1920, o samba começou a se consolidar como expressão sonora das comunidades negras que ocupavam os morros cariocas, muitas vezes formadas por migrantes vindos justamente daquela região central que fora desapropriada por reformas urbanas. É nesse contexto que surgem as primeiras escolas de samba, organizações comunitárias formadas para desfilar no Carnaval carioca — a Deixa Falar, fundada em 1928 no bairro do Estácio de Sá, costuma ser citada como uma das pioneiras.
O bairro do Estácio, aliás, é apontado por muitos historiadores como berço de uma mudança rítmica decisiva: compositores da região, entre eles Ismael Silva, teriam acelerado o andamento do samba e reorganizado sua percussão para se adequar ao desfile em movimento pelas ruas — dando origem ao chamado “samba de enredo”, distinto do samba mais lento e intimista que se ouvia nos salões até então.
Paralelamente, ao longo das décadas de 1930 e 1940, floresceu o samba-canção, vertente mais lenta e melódica, voltada para o rádio e para o consumo doméstico — tendo em Noel Rosa um de seus compositores mais celebrados, conhecido por letras que misturavam lirismo e humor coloquial carioca.
Cartola, a Mangueira e o samba como tradição escrita
Se o Estácio acelerou o ritmo do samba, foi a Estação Primeira de Mangueira, fundada em 1928, que se tornaria um dos berços mais influentes de compositores de samba ao longo do século. Cartola, um dos fundadores da escola, é hoje reconhecido como um dos maiores compositores populares brasileiros de qualquer gênero — sua obra, no entanto, só ganharia reconhecimento nacional mais amplo décadas depois de composta, quando o próprio Cartola já era um homem de meia-idade que havia passado anos afastado da vida artística, dirigindo um lava-rápido no Rio de Janeiro antes de retomar a carreira musical no fim dos anos 1950.
Esse padrão — de compositores de samba ligados a escolas e comunidades específicas, cuja obra circula por anos de forma quase informal antes de alcançar reconhecimento e registro mais amplo — se repetiria com outros nomes centrais da tradição, e ajuda a explicar por que a historiografia do samba depende tanto de relatos orais e de pesquisa retrospectiva para reconstituir sua cronologia com precisão.
Os anos 1960 e o nascimento da sigla “MPB”
Se o samba definiu a primeira metade do século musical brasileiro, os anos 1960 trariam uma nova categoria, guarda-chuva, para descrever a canção popular brasileira de raiz sofisticada: a “MPB”, sigla para Música Popular Brasileira. O termo ganhou força justamente como forma de diferenciar essa produção de dois fenômenos concorrentes da época: de um lado, a Jovem Guarda, movimento de rock e balada romântica influenciado por artistas como os Beatles, liderado no Brasil por Roberto Carlos; de outro, a crescente presença de música estrangeira nas rádios brasileiras.
Os festivais de música transmitidos pela televisão — promovidos por emissoras como a TV Record entre 1965 e 1968 — foram decisivos para consolidar essa cena. Eles revelaram ou consagraram nomes como Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina, Geraldo Vandré e Gilberto Gil, além de terem sido, momentos depois, palco de embates estéticos e políticos famosos — como a recepção conturbada que Caetano Veloso e os Mutantes receberam ao apresentar “É Proibido Proibir” em 1968, episódio emblemático do confronto entre a MPB mais tradicional e a estética emergente do Tropicalismo.
Canção e censura
A partir de 1964, o Brasil viveu sob ditadura militar, e boa parte da produção de MPB da década seguinte carregaria, direta ou veladamente, esse contexto político. Chico Buarque se tornaria um dos compositores mais visados pela censura, tendo canções proibidas e sendo obrigado a driblar os censores com metáforas — “Apesar de Você” (1970), lida à época como uma crítica velada ao regime, é um dos exemplos mais citados dessa estratégia. Esse período consolidou a MPB não apenas como categoria musical, mas como espaço de resistência cultural, o que ajuda a explicar por que o gênero é lembrado até hoje com um peso histórico que vai além da música em si.
Depois da MPB: o samba continua se reinventando
A trajetória do samba não parou nos anos 1960. Na década de 1970, o gênero ganhou uma vertente mais intimista e voltada para encontros informais em rodas — o pagode, que traria à tona instrumentos e uma sonoridade mais despojada, ligada a bairros e comunidades específicas do Rio, antes de se tornar um fenômeno comercial de grande escala nas décadas seguintes. Já a institucionalização do desfile das escolas de samba se consolidaria de forma definitiva em 1984, com a inauguração do Sambódromo do Rio de Janeiro, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer especificamente para abrigar o desfile competitivo que hoje atrai atenção internacional durante o Carnaval carioca.
Um mesmo rio, com afluentes diferentes
Samba e MPB não são a mesma coisa, mas tampouco são gêneros isolados um do outro: a MPB nasce, em boa medida, de compositores formados dentro da tradição do samba e do samba-canção, que expandiram seu vocabulário harmônico e temático absorvendo influências da Bossa Nova, do jazz e, depois, do próprio rock. É por isso que muitas listas e catálogos de música brasileira — inclusive o critério usado por este site — tratam samba e MPB como um contínuo histórico, e não como dois compartimentos separados.
Boa parte desse repertório, do samba de raiz à MPB mais elaborada, nasceu tocada em cavaquinho e violão de aço — instrumentos com um papel na música brasileira tão central quanto o do violão de náilon na Bossa Nova. Veja nosso guia de como escolher um cavaquinho para quem quer começar a tocar samba na prática.