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Jazz

As Origens do Jazz

Nenhum outro gênero do século 20 mudou tantas vezes de forma quanto o jazz — de música de dança em salões lotados a linguagem de vanguarda tocada para plateias sentadas em silêncio reverente. Mas todas essas transformações partem de um único ponto de origem: as ruas de Nova Orleans, no início dos anos 1900, onde tradições musicais completamente diferentes se encontraram dentro de um mesmo bairro.

Nova Orleans: um cruzamento cultural único

No início do século 20, Nova Orleans era uma cidade com uma mistura cultural sem paralelo nos Estados Unidos: herança francesa e espanhola, uma população afro-americana com tradições musicais próprias vindas da era da escravidão (spirituals, work songs, blues), uma comunidade crioula com formação musical mais formal e europeia, e uma forte cultura de bandas de metais que se apresentavam em funerais, desfiles e celebrações públicas.

O jazz nasceu da fricção produtiva entre essas tradições: a instrumentação emprestada das bandas marciais (trompete, trombone, clarinete, tuba, bateria), a harmonia e a estrutura de forma emprestadas em parte da tradição musical europeia via músicos crioulos com formação mais formal, e o fraseado, o groove e a sensibilidade rítmica vindos diretamente do blues e das tradições afro-americanas. O resultado era uma música coletivamente improvisada, em que vários instrumentos de sopro tocavam linhas melódicas simultâneas, entrelaçadas, sobre uma base rítmica constante — o que ficaria conhecido como jazz de Nova Orleans, ou “dixieland”.

O bairro de Storyville, zona de entretenimento licenciada da cidade entre 1897 e 1917, é frequentemente citado como berço mítico do jazz, embora pesquisadores mais recentes apontem que a música se desenvolvia em toda a cidade, não apenas ali — Storyville sobrevive mais como símbolo cultural do que como origem geográfica exclusiva do gênero.

Buddy Bolden e os pioneiros sem gravação

O cornetista Buddy Bolden, ativo em Nova Orleans no início dos anos 1900, é frequentemente citado como uma das primeiras figuras a tocar algo reconhecível como jazz — infelizmente, nenhuma gravação sua sobreviveu (ou talvez nunca tenha existido), e sua história chega até hoje principalmente por relatos de contemporâneos, o que confere a Bolden um status quase lendário na historiografia do gênero.

O pianista Jelly Roll Morton, por outro lado, deixou tanto gravações quanto uma afirmação polêmica: que ele próprio havia “inventado o jazz” em 1902. A frase é hoje tratada com ceticismo pelos historiadores — o jazz claramente emergiu de um processo coletivo, não de uma invenção individual —, mas Morton foi, sem dúvida, um dos primeiros a formalizar arranjos de jazz por escrito e a gravá-los de forma influente, na década de 1920.

A Grande Migração leva o jazz para o norte

A partir de 1917, com o fechamento de Storyville por pressão da Marinha americana durante a Primeira Guerra Mundial, e num contexto mais amplo da Grande Migração — o deslocamento de milhões de afro-americanos do sul rural para cidades industriais do norte em busca de trabalho e fuga da segregação —, muitos músicos de Nova Orleans se mudaram para Chicago.

Foi em Chicago que um jovem cornetista chamado Louis Armstrong, convidado em 1922 pelo já estabelecido King Oliver para integrar sua Creole Jazz Band, começou a se destacar. Poucos anos depois, à frente de seus próprios grupos — os Hot Five e Hot Seven, gravando entre 1925 e 1928 —, Armstrong revolucionaria o jazz ao deslocar o centro da música da improvisação coletiva para o solo individual virtuosístico, estabelecendo um modelo de “tema seguido de solos” que se tornaria dominante no gênero por décadas. Seu fraseado rítmico, hoje descrito como swing, e sua técnica vocal de scat (improviso vocal com sílabas sem sentido literal) influenciariam gerações de músicos, tanto instrumentistas quanto cantores.

A era do swing: o jazz vira música de dança em massa

Na década de 1930, o jazz se tornou a trilha sonora popular dos Estados Unidos através do swing — big bands com seções inteiras de metais e saxofones, tocando arranjos elaborados para salões de dança lotados. Duke Ellington e Count Basie lideraram algumas das orquestras mais sofisticadas e influentes do período, embora fosse o clarinetista branco Benny Goodman quem recebesse, à época, o título midiático de “Rei do Swing” — uma distinção que reflete, em parte, as desigualdades raciais da indústria do entretenimento americana daquele momento, já que bandleaders negros como Ellington e Basie tinham reconhecimento artístico equivalente ou superior, mas menos acesso a determinados espaços e contratos por conta da segregação racial então vigente.

Duke Ellington e a sofisticação orquestral do jazz

Ainda dentro da era do swing, Duke Ellington merece um destaque à parte: à frente de sua orquestra, residente por anos no Cotton Club, um clube noturno do Harlem (que, de forma reveladora sobre as contradições raciais da época, tinha plateia majoritariamente branca para se apresentações de artistas majoritariamente negros), Ellington compôs um repertório de sofisticação harmônica e orquestral que extrapolava em muito as expectativas do jazz como mera música de dança. Peças como “Mood Indigo” e, décadas depois, suítes orquestrais mais longas e ambiciosas, consolidaram Ellington como um dos compositores americanos mais importantes do século 20 em qualquer gênero, jazz ou erudito.

Bebop: o jazz deixa de ser música de dança

Em meados dos anos 1940, um grupo de músicos mais jovens — entre eles o saxofonista Charlie Parker e o trompetista Dizzy Gillespie, tocando em clubes noturnos de Nova York como o Minton’s Playhouse — começou a desenvolver um jazz radicalmente mais rápido, harmonicamente denso e tecnicamente exigente, voltado para ouvintes atentos, não mais para dançarinos. O bebop marcou a transição do jazz de música popular de entretenimento para uma forma de arte mais autorreferente, ouvida sentada, em clubes menores — uma mudança de status cultural que se manteria nas décadas seguintes, com desdobramentos como o cool jazz, o hard bop e o jazz modal.

Cool jazz: a reação contida ao bebop

Já no início dos anos 1950, uma nova geração de músicos — entre eles o trompetista Miles Davis, com o álbum Birth of the Cool (gravado entre 1949 e 1950) — reagiu à intensidade quase febril do bebop propondo um jazz mais contido, de andamentos mais lentos, arranjos mais suaves e uma sonoridade que dialogava com a tradição orquestral europeia. Esse “jazz cool” encontraria, poucos anos depois, um eco direto do outro lado do Equador: foi justamente esse som mais suave e harmonicamente sofisticado que músicos brasileiros como João Gilberto e Tom Jobim escutavam em discos importados no Rio de Janeiro do fim dos anos 1950 — uma das influências diretas na formação da Bossa Nova, gênero que, por sua vez, seria posteriormente reabsorvido pelo próprio jazz americano através de artistas como Stan Getz.

Miles Davis continuaria a redefinir os rumos do jazz nas décadas seguintes, sendo também um dos responsáveis, já nos anos 1959, pelo álbum Kind of Blue — um dos discos de jazz mais vendidos e influentes da história, construído em torno de improvisações modais (baseadas em escalas, não apenas em progressões de acordes), abrindo mais uma ramificação estilística para o gênero.

Um gênero construído em cima de discos

Talvez mais do que qualquer outro gênero deste guia, o jazz tem uma relação intensa com o disco de vinil como objeto: gravações originais de selos como Blue Note, Impulse! e Verve são hoje itens de colecionador cobiçados, e a experiência de ouvir jazz num sistema de áudio de qualidade — captando a nuance dinâmica entre um solo sussurrado e uma explosão de metais — é parte da forma como gerações de ouvintes se conectaram com o gênero.

Se você está pensando em montar ou melhorar seu sistema de audição para jazz em casa, veja nosso guia de como escolher um toca-discos para ouvir jazz.